{"id":7887,"date":"2020-05-26T15:00:55","date_gmt":"2020-05-26T18:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/renataferracioli.com.br\/?p=7887"},"modified":"2020-05-26T08:11:56","modified_gmt":"2020-05-26T11:11:56","slug":"padrao-de-disseminacao-urbana-da-covid-19-reproduz-desigualdades-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/renataferracioli.com.br\/blog\/padrao-de-disseminacao-urbana-da-covid-19-reproduz-desigualdades-sociais\/","title":{"rendered":"Padr\u00e3o de dissemina\u00e7\u00e3o urbana da COVID-19 reproduz desigualdades sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Fernanda Ziegler | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 O novo coronav\u00edrus (SARS-CoV-2) tem impactado de forma desigual os territ\u00f3rios urbanos brasileiros. O n\u00famero de casos e de mortes por COVID-19 tende a ser maior nas \u00e1reas perif\u00e9ricas e em regi\u00f5es que antes da crise global j\u00e1 sofriam com problemas como falta de moradia digna, acesso deficiente \u00e0 \u00e1gua e saneamento, altos \u00edndices de polui\u00e7\u00e3o do ar e contamina\u00e7\u00e3o do solo.<\/p>\n<p>\u201cPode-se dizer que a COVID-19 est\u00e1 escancarando as nossas iniquidades. Embora o v\u00edrus infecte os indiv\u00edduos indiscriminadamente, o impacto da epidemia n\u00e3o \u00e9 igual na sociedade. Isso est\u00e1 se mostrando um padr\u00e3o, sobretudo no Brasil, mas tamb\u00e9m se notam desigualdades gritantes na forma como a doen\u00e7a est\u00e1 afetando diferentes popula\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos\u201d, diz <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/696537\/pedro-henrique-campello-torres\/\"> Pedro Henrique Campello Torres<\/a><\/strong>, pesquisador visitante na Bren School of Environmental Science &amp; Management, University of California Santa Barbara (UCSB), nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia do novo coronav\u00edrus, Torres redirecionou a pesquisa realizada no \u00e2mbito de uma <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/185078\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bolsa FAPESP Est\u00e1gio de Pesquisa no Exterior<\/a><\/strong> (BEPE) de p\u00f3s-doutorado para a an\u00e1lise do impacto da COVID-19 a partir de caracter\u00edsticas sociodemogr\u00e1ficas e territoriais. No projeto original, ele comparava os processos de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas ambientais e seus efeitos sociodemogr\u00e1ficos nos diferentes territ\u00f3rios urbanos do Norte e do Sul global.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, a dissemina\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus no Brasil e nos Estados Unidos tende a potencializar os diferentes impactos de pol\u00edticas p\u00fablicas ambientais. \u201cO planejamento urbano e a ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios em uma cidade est\u00e3o diretamente associados \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Processos de reescalonamento, como especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e pol\u00edticas p\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o, s\u00e3o fundamentais para se compreender como se d\u00e1 o desenvolvimento desigual dentro de uma mesma cidade\u201d, diz.<\/p>\n<p>Dessa forma, o padr\u00e3o de dissemina\u00e7\u00e3o do SARS-CoV-2 exige tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o sobre planejamento territorial e temas ligados \u00e0s desigualdades socioambientais. \u201cNo Brasil, os casos come\u00e7aram nas classes mais abastada, at\u00e9 que a doen\u00e7a foi se alastrando para os bairros de menor renda, que tamb\u00e9m s\u00e3o os mais prejudicados em rela\u00e7\u00e3o ao acesso a servi\u00e7os de \u00e1gua e saneamento e de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de habitabilidade. Juntam-se a essa quest\u00e3o problemas preexistentes, como doen\u00e7as respirat\u00f3rias, dengue e tantas outras vinculadas \u00e0 falta de saneamento que tornam essas popula\u00e7\u00f5es ainda mais vulner\u00e1veis \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o da COVID-19\u201d, diz <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/1931\/pedro-roberto-jacobi\"> Pedro Jacobi<\/a><\/strong>, supervisor do estudo de p\u00f3s-doutorado e coordenador do Projeto Tem\u00e1tico <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/97000\/governanca-ambiental-da-macrometropole-paulista-face-a-variabilidade-climatica\/\"> Governan\u00e7a ambiental da macrometr\u00f3pole paulista face \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>Os pesquisadores afirmam que, para al\u00e9m da quest\u00e3o de menor acesso \u00e0 sa\u00fade pelas popula\u00e7\u00f5es mais pobres no Brasil e nos EUA, a dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 territorialidade. \u201cUma doen\u00e7a com forte car\u00e1ter respirat\u00f3rio deve impactar mais uma popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 exposta a maiores n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o e apresenta comorbidades, como asma e pneumonia, consideradas fatores de risco. Outro problema: como algu\u00e9m pode indicar que se lavem as m\u00e3os v\u00e1rias vezes ao dia, como forma de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, se n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua encanada e muito menos sab\u00e3o?\u201d, indaga Torres.<\/p>\n<p>Ele ressalta que a distribui\u00e7\u00e3o territorial desigual dos riscos ambientais \u2013 saneamento, \u00e1gua ou polui\u00e7\u00e3o \u2013 vem afetando a qualidade de vida dos cidad\u00e3os antes mesmo da pandemia, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista ambiental como tamb\u00e9m social. \u201cA no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a ambiental nasce nos Estados Unidos com pesquisas emp\u00edricas do cientista social Robert Bullard [da Texas Southern University]. O que se v\u00ea nesses estudos \u00e9 que em \u00e1reas de contaminantes t\u00f3xicos [rejeitos industriais, agravos ambientais] havia uma predomin\u00e2ncia de popula\u00e7\u00f5es afro-americanas, configurando uma desigualdade espacial na cidade\u201d, diz.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, no Brasil esse conceito assume outras formas e propor\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, no caso dos atingidos por barragens em Minas Gerais, dos moradores pr\u00f3ximos da mina de explora\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio em Caetit\u00e9, na Bahia, dos pescadores artesanais na ba\u00eda de Guanabara, no Rio de Janeiro, da popula\u00e7\u00e3o residente em favelas em \u00e1reas de risco por desmoronamento ou das comunidades pr\u00f3ximas a aterros sanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na pesquisa, Torres vai comparar os dados referentes a mortes e infec\u00e7\u00e3o pelo novo coronav\u00edrus a partir de \u00edndices socioambientais e informa\u00e7\u00f5es de geolocaliza\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 verificar como fatores de vulnerabilidade habitacional impactaram de maneira distinta os diferentes territ\u00f3rios municipais no Brasil e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cExiste um problema grande de subnotifica\u00e7\u00e3o nos dois pa\u00edses. No Brasil, h\u00e1 ainda falta de transpar\u00eancia nos dados por regi\u00e3o das cidades e, nos Estados Unidos, aus\u00eancia de notifica\u00e7\u00e3o de casos de imigrantes ilegais, que n\u00e3o t\u00eam seguro social e nem sequer s\u00e3o atendidos em hospitais, por exemplo. A an\u00e1lise de dados exige cuidado especial. Vamos contrastar dados participat\u00f3rios agrupados por observat\u00f3rios sociais e tamb\u00e9m fazer pesquisa a partir da informa\u00e7\u00e3o que recebemos dos moradores para tentar contrapor essa aus\u00eancia de dados oficiais\u201d, diz.<\/p>\n<p>O pesquisador afirma ainda que, no caso da COVID-19 o problema n\u00e3o parece ter rela\u00e7\u00e3o apenas com a densidade populacional. Grandes aglomera\u00e7\u00f5es urbanas, como T\u00f3quio, Seul, Hong Kong e Cingapura, registraram proporcionalmente menor n\u00famero de casos que cidades com baixa densidade na Europa ou nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, vemos um aumento chocante de casos em \u00e1reas adensadas, como Brasil\u00e2ndia e Parais\u00f3polis, que tamb\u00e9m t\u00eam maior vulnerabilidade social. Por\u00e9m, diferentes exemplos no mundo mostram que a densidade populacional n\u00e3o parece ser a vil\u00e3 dessa hist\u00f3ria. Em cidades como Chicago e Nova York e na Calif\u00f3rnia, onde moro atualmente, as popula\u00e7\u00f5es mais afetadas s\u00e3o justamente os afro-americanos e os latinos, que n\u00e3o s\u00e3o as mais numerosas. \u00c9 preciso mirar nas inequidades para compreender o que est\u00e1 acontecendo\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/\">Ag\u00eancia FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/padrao-de-disseminacao-urbana-da-covid-19-reproduz-desigualdades-territoriais\/33226\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O novo coronav\u00edrus (SARS-CoV-2) tem impactado de forma desigual os territ\u00f3rios urbanos brasileiros. 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