{"id":8046,"date":"2020-12-11T16:10:13","date_gmt":"2020-12-11T19:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/renataferracioli.com.br\/?p=8046"},"modified":"2020-12-11T16:10:13","modified_gmt":"2020-12-11T19:10:13","slug":"estudo-investiga-como-estresse-gerado-por-privacao-de-sono-afeta-a-imunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/renataferracioli.com.br\/blog\/estudo-investiga-como-estresse-gerado-por-privacao-de-sono-afeta-a-imunidade\/","title":{"rendered":"Estudo investiga como estresse gerado por priva\u00e7\u00e3o de sono afeta a imunidade"},"content":{"rendered":"<p><b>Jana\u00edna Sim\u00f5es\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP<\/b> \u2013 Com o objetivo de analisar\u00a0a rela\u00e7\u00e3o entre os sistemas nervoso e imunol\u00f3gico, um grupo coordenado por cientistas da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) investigou como a priva\u00e7\u00e3o de sono impacta as respostas imunol\u00f3gicas em tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es distintas: na asma al\u00e9rgica, na mal\u00e1ria e na imunoterapia contra tumores. Para isso, os pesquisadores induziram em camundongos dist\u00farbios na fase REM do sono (sigla em ingl\u00eas para <i>Rapid Eye Movement<\/i>), a mais importante para o descanso e o equil\u00edbrio do organismo.<\/p>\n<p>Em uma das pesquisas, o grupo avaliou se o estresse causado pela priva\u00e7\u00e3o de sono poderia interferir na imunidade natural durante o processo de desenvolvimento da mal\u00e1ria. No outro estudo, procurou-se saber o impacto em um tratamento para c\u00e2ncer, utilizando um imunoter\u00e1pico desenvolvido por uma empresa japonesa. No terceiro, o objetivo foi entender se o estresse pioraria uma doen\u00e7a inflamat\u00f3ria preexistente, no caso, a asma.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo com esse conjunto de pesquisas \u00e9 melhorar a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o bidirecional entre os sistemas nervoso e imunol\u00f3gico, contribuindo para o desenvolvimento de novas formas de interven\u00e7\u00e3o em doen\u00e7as inflamat\u00f3rias, imunoterapia, imunoprofilaxia e no tratamento de transtornos neurol\u00f3gicos\u201d, disse\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/2982\/alexandre-de-castro-keller\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alexandre Keller<\/a><\/strong>, da Unifesp.<\/p>\n<p>Keller e <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/42936\/daniela-santoro-rosa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Daniela Santoro Rosa<\/a><\/strong>, ambos professores do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da institui\u00e7\u00e3o, coordenaram as pesquisas\u00a0que desenvolveram em parceria com a professora <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/15176\/monica-levy-andersen\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monica Levy Andersen<\/a><\/strong>, do Departamento de Psicobiologia da universidade. Os estudos foram financiados pela FAPESP\u00a0por meio de quatro Aux\u00edlios \u00e0 Pesquisa (<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/47617\/estudo-sobre-o-papel-de-respostas-th2-como-fator-de-risco-associado-ao-desenvolvimento-da-glomeruloe\/?q=2012\/04692-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2012\/04692-1<\/a><\/strong>; <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/88203\/direcionamento-in-vivo-de-epitopos-de-linfocitos-tcd4-do-hiv-1-para-celulas-dendriticas\/?q=2014\/15061-8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2014\/15061-8<\/a><\/strong>; <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/102301\/antigenicidade-e-imunogenicidade-de-proteinas-recombinantes-do-envelope-viral-do-zika-virus\/?q=2017\/17471-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2017\/17471-7<\/a><\/strong> e <strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/104415\/estudo-sobre-a-influencia-do-sistema-nervoso-simpatico-na-atividade-biologica-dos-linfocitos-t-invar\/?q=2019\/11490-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2019\/11490-5<\/a><\/strong>).<\/p>\n<p><b>Imunovigil\u00e2ncia contra tumores<\/b><\/p>\n<p>V\u00e1rios trabalhos cient\u00edficos j\u00e1 descreveram que a resposta de estresse prejudica a imunovigil\u00e2ncia contra tumores, por\u00e9m, pouco se sabe sobre sua influ\u00eancia sobre a atividade dos linf\u00f3citos NKT (sigla em ingl\u00eas para <i>natural killer T cells<\/i>, ou c\u00e9lulas T assassinas naturais). Essas c\u00e9lulas influenciam uma s\u00e9rie de respostas imunol\u00f3gicas, incluindo a imunovigil\u00e2ncia, e por isso s\u00e3o de interesse para quem busca desenvolver tratamentos contra diversos tipos de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Os pesquisadores utilizaram um modelo de met\u00e1stase pulmonar experimental para determinar o impacto da priva\u00e7\u00e3o de sono sobre a imunoterapia com alfa-galactosilceramida, um glicolip\u00eddeo empregado em estudos cl\u00ednicos (fora do Brasil) contra diversos tipos de c\u00e2nceres. \u201cOs animais foram inoculados com c\u00e9lulas de melanoma capazes de expressar esse glicolip\u00eddeo em sua superf\u00edcie, sendo em seguida expostos \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de sono\u201d, disse Keller.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 agora, a efici\u00eancia dessa abordagem tem se mostrado excelente em camundongos, mas est\u00e1 abaixo do esperado em humanos e n\u00e3o se sabe os motivos\u201d, disse\u00a0o pesquisador. Um dos pontos de investiga\u00e7\u00e3o sobre o que pode causar o problema \u00e9 o efeito do estresse. No caso, os pesquisadores avaliaram, de forma in\u00e9dita, o impacto do dist\u00farbio de sono na efic\u00e1cia do imunoter\u00e1pico.<\/p>\n<p>Segundo Keller, mesmo com o aumento de corticosterona (o horm\u00f4nio do estresse em animais, equivalente ao cortisol em humanos), a resposta induzida pela alfa-galactosilceramida foi capaz de controlar o desenvolvimento tumoral. \u201cNosso trabalho mostra que essas c\u00e9lulas, nesse modelo, n\u00e3o s\u00e3o afetadas pelo estresse, ou seja, em teoria, elas continuam sendo um alvo interessante para imunoterapia, mesmo durante epis\u00f3dios de estresse\u201d, disse. Os resultados foram <strong><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0889159120304888\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicados<\/a><\/strong> no peri\u00f3dico <i>Brain, Behavior, and Immunity<\/i>.<\/p>\n<p><b>Defesa contra pat\u00f3genos<\/b><\/p>\n<p>Outra circunst\u00e2ncia que os pesquisadores queriam estudar era o impacto do dist\u00farbio de sono na resposta natural do organismo contra um pat\u00f3geno. No caso, eles analisaram protozo\u00e1rios do g\u00eanero <i>Plasmodium<\/i> causadores da mal\u00e1ria e transmitidos por meio da picada de f\u00eameas do mosquito <i>Anopheles<\/i>. \u201cMostramos que haver\u00e1 diminui\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia da resposta de anticorpo se o dist\u00farbio de sono ocorrer a partir de um determinado ponto do processo de desenvolvimento da resposta natural contra o pat\u00f3geno\u201d, disse Keller.<\/p>\n<p>Utilizando um modelo de mal\u00e1ria murina, em que a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos tem papel cr\u00edtico na sobreviv\u00eancia do hospedeiro, observaram a resposta imune se desenvolver em uma curva de tempo conhecida como janela imunol\u00f3gica. A priva\u00e7\u00e3o de sono foi imposta ao modelo em diferentes per\u00edodos. Antes ou logo ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o afetou a resist\u00eancia do hospedeiro ao parasita. Quando a priva\u00e7\u00e3o ocorreu tr\u00eas dias ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o, os animais sucumbiram.<\/p>\n<p>O ponto cr\u00edtico do processo, segundo os pesquisadores, se d\u00e1 no in\u00edcio da montagem da resposta imune adaptativa. Nessa fase, o linf\u00f3cito T atua junto com o linf\u00f3cito B para montar a resposta ao pat\u00f3geno, ou seja, estimular a produ\u00e7\u00e3o do anticorpo e trazer a imunidade.<\/p>\n<p>&#8220;Conseguimos observar que, se voc\u00ea houver\u00a0um epis\u00f3dio de estresse durante a fase de diferencia\u00e7\u00e3o do linf\u00f3cito T, processo que vai levar \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o do linf\u00f3cito B e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de anticorpos, haver\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia da resposta, e com isso o organismo fica mais suscet\u00edvel \u00e0 infec\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Keller.<\/p>\n<p>O artigo <i>Sleep Disturbance during Infection Compromises Tfh Differentiation and Impacts Host Immunity<\/i>, que descreve a pesquisa e seus resultados, foi <strong><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2589004220307914?via%3Dihub\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicado<\/a>\u00a0<\/strong>na <i>iScience<\/i>.<\/p>\n<p><b>Priva\u00e7\u00e3o de sono e asma<\/b><\/p>\n<p>Para avaliar o impacto da priva\u00e7\u00e3o de sono em uma doen\u00e7a inflamat\u00f3ria preexistente, os pesquisadores estudaram a asma al\u00e9rgica, que pode variar de intermitente a\u00a0persistente grave. Pacientes que sofrem de asma grave, com presen\u00e7a marcante de neutr\u00f3filos, s\u00e3o, frequentemente, refrat\u00e1rios ao tratamento por corticoide e este tipo de manifesta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica tem sido associado a diversas comorbidades, incluindo a apneia obstrutiva do sono, em que a respira\u00e7\u00e3o para e retorna diversas vezes.<\/p>\n<p>O estudo mostrou que o dist\u00farbio de sono poderia aumentar a gravidade da resposta inflamat\u00f3ria nos camundongos, ou seja, um organismo que apresentava um quadro de asma mais leve poderia evoluir para o n\u00edvel grave por conta da falta de sono, se tornando, inclusive, resistente ao tratamento com corticoide.<\/p>\n<p>Para chegar ao resultado, os pesquisadores utilizaram um modelo de alergia experimental, em que camundongos s\u00e3o induzidos a desenvolver uma resposta inflamat\u00f3ria pulmonar do tipo Th2, com predom\u00ednio de eosin\u00f3filos, um tipo de gl\u00f3bulo branco do sangue que desempenha papel importante na resposta a asma e outras doen\u00e7as, e de citocinas como IL-4 e IL-13, respons\u00e1veis por ativar, mediar ou regular a resposta imune. Ao ser submetido \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de sono durante a exposi\u00e7\u00e3o ao al\u00e9rgeno pelas vias a\u00e9reas, os animais apresentaram altera\u00e7\u00e3o na resposta inflamat\u00f3ria Th2 para um perfil Th17, com predom\u00ednio de neutr\u00f3filos e IL-17, fen\u00f4meno resistente ao tratamento com o corticoide dexametasona.<\/p>\n<p>Apesar dos mecanismos envolvidos nesse fen\u00f4meno ainda n\u00e3o estarem esclarecidos, esse estudo indica que os dist\u00farbios de sono, e possivelmente outras situa\u00e7\u00f5es de estresse, s\u00e3o fatores de risco para a evolu\u00e7\u00e3o da gravidade da asma al\u00e9rgica. Esse estudo est\u00e1 descrito em artigo <strong><a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/28732645\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicado<\/a><\/strong> no <i>The Journal of Allergy and Clinical Immunology<\/i>.<\/p>\n<p>Essas pesquisas fazem parte de um conjunto maior de estudos que ainda est\u00e3o em andamento e focam no entendimento mais amplo da rela\u00e7\u00e3o bidirecional existente entre os sistemas nervoso e imunol\u00f3gico. \u201cSe a imunoterapia n\u00e3o funciona porque tem uma influ\u00eancia forte do sistema nervoso, \u00e9 poss\u00edvel pensar em interferir nos neurotransmissores, nos receptores, por exemplo\u201d, disse Keller.<\/p>\n<p>Ou seja, ainda que os estudos n\u00e3o tenham aplica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica imediata, os conhecimentos obtidos permitir\u00e3o, no futuro, tra\u00e7ar caminhos de interven\u00e7\u00e3o. \u201cAo entendermos como a resposta do estresse interfere no sistema imunol\u00f3gico, conseguimos ampliar as alternativas poss\u00edveis de agir junto ao sistema imune ou nervoso para um tratamento m\u00e9dico\u201d, disse o pesquisador da Unifesp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/\">Ag\u00eancia FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/estudo-investiga-como-estresse-gerado-por-privacao-de-sono-afeta-a-imunidade\/34806\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jana\u00edna Sim\u00f5es\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Com o objetivo de analisar\u00a0a rela\u00e7\u00e3o entre os sistemas nervoso e imunol\u00f3gico, um grupo coordenado por cientistas da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) investigou como a priva\u00e7\u00e3o de sono impacta as respostas imunol\u00f3gicas em tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es distintas: na asma al\u00e9rgica, na mal\u00e1ria e na imunoterapia contra tumores. 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